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  • Errata, corrigendum, addendum e retração: como classificar e processar correções na literatura científica (Guia prático)

    Correções e retratações fazem parte do ciclo normal da ciência. O que não deveria ser rotineiro — mas o é, em muitos periódicos — é a ausência de políticas claras para lidar com elas quando surgem. Sem uma tipologia definida, a resposta ao erro tende a ser improvisada: ora excessiva, ora insuficiente, quase sempre inconsistente. Este texto propõe um guia prático: como classificar os erros, identificar o instrumento editorial adequado e conduzir o processo de correção com rigor e transparência.

    Classificar antes de agir: os quatro tipos de erro

    Na prática editorial, nem todo erro tem a mesma natureza e a resposta adequada depende diretamente de como o problema é identificado e classificado. A literatura editorial consolidou uma tipologia de quatro categorias1:

    Erros menores: têm natureza tipográfica e não comprometem o conteúdo científico. Podem ser corrigidos silenciosamente na versão online, sem aviso formal para leitores.

    Erros substantivos: comprometem informações críticas, como o nome de um autor, a dose de um medicamento, um valor central dos resultados. Exigem a publicação de um aviso de correção formalmente vinculado ao artigo original — com DOI próprio e indexação.

    Erros pervasivos: afetam múltiplas seções e podem tornar o trabalho metodologicamente comprometido. A resposta adequada é uma carta explicativa acompanhada de aviso de correção ou, nos casos mais graves, a retratação seguida da substituição por uma versão corrigida — modalidade que preserva o crédito científico dos autores quando o erro é reconhecidamente não intencional.

    Má conduta científica: fabricação de dados, falsificação de resultados ou plágio resultam em aviso de retratação. Quando a investigação ainda está em curso, o instrumento adequado é uma Expressão de Preocupação (Expression of Concern), que sinaliza publicamente a situação sem antecipar conclusões1.

    Os erros chegam às redações por caminhos variados: leitores, os próprios investigadores em análises posteriores, pesquisadores tentando replicar o estudo, a equipe editorial ou a imprensa. Independentemente da origem, o processo de investigação segue uma lógica invariável: comunicação formal com os autores, análise dos documentos originais e a pergunta central sobre como o erro ocorreu e o que pode ser feito para evitar recorrência. Esse rigor processual é o que diferencia uma correção legítima de um gesto meramente defensivo.

    Os quatro tipos de emendas: qual usar em cada situação

    Além de classificar o erro, o editor precisa escolher o instrumento editorial correto. A tipologia dos erros indica a gravidade; a taxonomia das emendas define quem é responsável e qual é o procedimento cabível. Uma taxonomia consolidada distingue quatro tipos2:

    Erratas (Erratum): corrigem erros introduzidos pela própria revista durante a edição ou a produção — não pelos autores. Unidades científicas incorretas inseridas na diagramação, endereços de e-mail com erros tipográficos na composição ou omissões de prova introduzidas pela equipe são exemplos característicos. A responsabilidade é da publicação e o aviso deve deixar isso claro.

    Correções/Retificações (Corrigendum): são submetidas pelos próprios autores quando a acurácia científica ou a reprodutibilidade do trabalho está comprometida. Também são aceitas para corrigir a lista de autoria em casos de omissão ou inclusão indevida. A distinção em relação à errata é fundamental: enquanto a errata aponta um erro da revista, a corrigenda reconhece um erro dos autores. Confundi-las não é apenas um equívoco terminológico — é uma questão de atribuição correta de responsabilidades e de transparência perante a comunidade científica.

    Adendos (Addendum): acrescentam informações relevantes omitidas inadvertidamente do artigo original, sem contradizer seu conteúdo. Antes de serem publicadas, devem passar por nova avaliação por pares — o que garante que o acréscimo mantenha o mesmo padrão de rigor da publicação original. São um recurso menos frequente, mas especialmente útil em trabalhos técnicos em que a omissão de um dado complementar compromete a aplicabilidade dos resultados.

    Retratações: são aplicadas quando a conclusão principal do artigo é comprometida de forma grave — por descobertas posteriores, por impossibilidade de replicação experimental ou por infrações éticas. O processo exige concordância de todos os coautores; quando algum deles recusa, a boa prática editorial prevê que a retratação seja publicada identificando os dissidentes — procedimento alinhado às diretrizes do Committee on Publication Ethics (COPE) que preserva a integridade do registro sem depender do consenso2. A retratação com substituição — modalidade que permite publicar uma versão corrigida no lugar do artigo retratado — é reservada para erros pervasivos não intencionais e distingue claramente o erro honesto da fraude deliberada1.

    Como conduzir o processo na prática

    Recebida a notificação de um erro — seja de qual origem for —, o editor deve abrir formalmente o caso e notificar todos os autores do artigo, solicitando resposta dentro de prazo razoável. A comunicação deve ser documentada. Durante a investigação, o artigo permanece publicado; caso a situação seja grave e a incerteza prolongada, o instrumento adequado é a Expression of Concern, que sinaliza ao leitor que o trabalho está sob avaliação sem antecipar um veredicto.

    A investigação deve buscar responder três perguntas objetivas:

    • o erro afeta as conclusões do artigo?
    • O erro foi intencional ou inadvertido?
    • Há necessidade de notificação a outras partes (instituições dos autores, agências de fomento, bases de dados)?

     

    As respostas orientam diretamente a escolha do instrumento editorial — errata, correção, adendo, retração simples ou retração com substituição.

    Ao final do processo, a correção ou retratação deve receber DOI próprio, ser formalmente vinculada ao artigo original em ambas as direções (o artigo aponta para a correção; a correção aponta para o artigo) e ser depositada no Crossref com o atributo Crossmark atualizado. Esse encadeamento garante que leitores que acessam o artigo original sejam informados da situação — independentemente de onde o encontraram.

    Orientações do COPE: o que os casos reais ensinam

    O COPECommittee on Publication Ethics — publica orientações e casos comentados que traduzem os princípios gerais em decisões concretas. Quatro situações recorrentes ilustram nuances que a tipologia formal nem sempre captura:

    Erratum ou Corrigendum? Investigue antes de nomear

    A distinção entre os dois instrumentos — já detalhada em parágrafos anteriores — é, na prática, precedida por uma etapa que define tudo: a verificação da origem do erro. O COPE orienta que o editor investigue se o problema existia no manuscrito original ou foi introduzido durante a produção antes de atribuir responsabilidade e nomear o instrumento7. Periódicos que optam por um termo genérico (“correção”) e acrescentam uma nota explicando a origem do erro agem dentro das boas práticas, desde que o contexto seja transparente. Os autores devem ser notificados antes da publicação de qualquer aviso e, sempre que possível, devem concordar com a redação — sem que haja exigência de pedido de desculpas.

    Erros analíticos sem má conduta: a extensão importa mais do que a intenção

    Erros estatísticos ou metodológicos identificados pós-publicação, mesmo sem evidência de má conduta, podem exigir retratação quando as alterações necessárias comprometem substancialmente os resultados. O critério decisivo, segundo o COPE, não é apenas a intenção dos autores — é a extensão das mudanças8. Se o artigo corrigido seria essencialmente diferente do original, a retratação — com ou sem substituição — pode ser mais adequada do que uma corrigenda. O princípio norteador é garantir que o leitor compreenda o que ocorreu e possa avaliar o conteúdo resultante com clareza.

    Conteúdo gerado por IA: uma categoria emergente

    O uso não declarado de ferramentas de geração de texto por inteligência artificial configura uma nova categoria de preocupação com a integridade. O COPE orienta que detectores automáticos de IA não sirvam como critério definitivo — essas ferramentas não são infalíveis e os resultados devem ser interpretados por especialistas9. O primeiro passo é contatar o autor em tom neutro, citando as diretrizes do periódico sobre autoria e uso de IA. Para artigos já publicados, a retratação só se justifica quando o editor não pode mais confiar na integridade do trabalho como um todo.

    Artigos antigos: sem prazo de validade para a integridade

    A antiguidade de um artigo não é critério suficiente para dispensar uma investigação. O COPE é explícito: cada caso deve ser avaliado individualmente, mesmo quando o artigo foi publicado há anos ou décadas10. O que pode mudar com o tempo é a disponibilidade de dados originais e a capacidade de investigação — mas não a obrigação de agir quando há evidência concreta de problema.

    Crossmark: a ferramenta para registro de correções e retratações

    O Crossmark é um serviço do Crossref que permite verificar, em tempo real, o status atual de um artigo publicado com DOI. Para que funcione, o periódico precisa aderir ao serviço e implementar ativamente o botão Crossmark em suas páginas e PDFs, vinculando-o ao DOI de cada artigo. Uma vez configurado, o leitor que clicar no botão vê imediatamente se o trabalho foi corrigido, retratado ou se há alguma expressão de preocupação associada — independentemente de onde o encontrou, seja em uma base de dados, em um repositório ou no próprio site do periódico. Para revistas que utilizam DOIs registrados no Crossref, manter o Crossmark atualizado após correções e retratações é o mecanismo mais eficaz de garantir que a informação chegue ao leitor no ponto de acesso, sem depender de reindexação por sistemas intermediários.

    Um dos obstáculos práticos para editores que pretendem registrar suas correções é a geração do arquivo XML no formato exigido pelo Crossref para atualização de metadados via Crossmark. Para simplificar esse processo, desenvolvemos, durante participação no Crossref Metadata Sprint São Paulo 2026, a Scholarly Retraction and Correction Tool — ferramenta gratuita disponível em scholarlyretractiontool.org3.

    A ferramenta funciona sem necessidade de cadastro: o editor informa o DOI do artigo, e o sistema recupera automaticamente os metadados existentes no Crossref. A partir daí, é possível preencher os dados da correção ou retratação e gerar o arquivo XML correspondente — que pode ser copiado, baixado ou depositado diretamente no Crossref com as credenciais do periódico. A plataforma não armazena dados de usuários, credenciais ou arquivos gerados, e integra informações da Retraction Watch Database para consulta e visualização do cenário de retratações por país e área temática3.

    O cenário em perspectiva: por que isso importa agora

    Para situar a relevância do tema, vale observar o contexto em que esses procedimentos operam. As retratações na literatura científica cresceram de forma consistente nos últimos vinte anos, em ritmo superior ao das publicações. Dados da Retraction Watch Database (2018–2023) mostram que o fenômeno é geograficamente concentrado — com China (45,07%), Paquistão (6,34%) e Índia (5,63%) liderando — e setorialmente específico, com oncologia, cardiologia e oftalmologia entre as especialidades mais afetadas4. O tempo mediano entre publicação e retratação é de 9,5 meses para casos de plágio, e estima-se que cerca de três anos se passem até que a retratação seja devidamente indexada no PubMed — janela em que o artigo questionável continua sendo citado.

    Esse cenário é agravado pelo crescimento das paper mills — empresas que ofertam manuscritos por encomenda, inclusão de nomes em artigos já aceitos e intermediação acadêmica em escala industrial. O maior estudo já realizado sobre esse mercado identificou mais de 18 mil anúncios publicados entre 2020 e 2026 por sete empresas que atuam em múltiplos países5 — o que significa que periódicos sem procedimentos claros para lidar com suspeitas de má conduta se tornam alvos mais vulneráveis.

    Em resposta a esse quadro, agências de fomento começam a incorporar o histórico de retratações como critério de avaliação. A Índia passou a exigir que pesquisadores informem retratações ocorridas nos últimos cinco anos ao solicitar financiamento junto à Anusandhan National Research Foundation (ANRF)6. A China adota medidas semelhantes há mais tempo. A integridade científica migrou do campo exclusivamente editorial para o campo da governança da pesquisa.

    Corrigir é um ato de confiança na ciência

    Ter uma política de correções e retratações publicada, com tipologia clara e procedimentos definidos, não é um requisito burocrático: é um sinal de maturidade editorial. Indexadores como SciELO, Latindex e Redalyc incluem critérios de transparência editorial em seus sistemas de avaliação, e periódicos que já possuem esses procedimentos formalizados estão melhor posicionados diante de autores, leitores e agências de fomento. Corrigir com rigor é, em essência, um ato de confiança na ciência — a demonstração de que o periódico leva a sério a integridade do que publica1.

    ———

    Referências

    1. Christiansen S, Flanagin A. Correcting the Medical Literature: 'To Err Is Human, to Correct Divine'. JAMA. 2017;318(9):804–805. doi:10.1001/jama.2017.11833
    2. Open Access Macedonian Journal of Medical Sciences. Retraction Policy. Disponível em: https://oamjms.eu/index.php/mjms/retraction_oamjms
    3. Telles E. Scholarly Retraction and Correction Tool. GeniusDesign / Crossref Metadata Sprint São Paulo 2026. Disponível em: https://scholarlyretractiontool.org
    4. Telles E. Editorial de revista americana revela avanço das retratações na literatura médica mundial. Periódico Eletrônico, 26 jan. 2026. Disponível em: https://periodicoeletronico.com.br/editorial-de-revista-americana-revela-avanco-das-retratacoes-na-literatura-medica-mundial
    5. Coradel J. Estudo revela mercado global de fraude acadêmica operado por empresas de venda de artigos científicos. Periódico Eletrônico, 22 jun. 2026. Disponível em: https://periodicoeletronico.com.br/estudo-revela-mercado-global-de-fraude-academica-operado-por-empresas-de-venda-de-artigos-cientificos
    6. Coradel J. Retratações deixam de ser apenas um problema editorial e chegam ao financiamento. Periódico Eletrônico, 10 jun. 2026. Disponível em: https://periodicoeletronico.com.br/retratacoes-deixam-de-ser-apenas-um-problema-editorial-e-chegam-ao-financiamento
    7. Committee on Publication Ethics (COPE). Corrigendum or erratum? Case 19-21. 2019. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance/case/corrigendum-or-erratum
    8. Committee on Publication Ethics (COPE). Handling statistical errors in a published article but with no evidence of intentional misconduct. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance?f%5B0%5D=topics%3A17
    9. Committee on Publication Ethics (COPE). Suspected AI-generated manuscripts. Case 26-11. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance/case/suspected-ai-generated-manuscripts
    10. Committee on Publication Ethics (COPE). Handling retractions and expressions of concern for old articles. COPE Position Statement. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance?f%5B0%5D=topics%3A17

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  • Avaliação por pares aberta ganha força e converge com propostas de transformação da comunicação científica

    A adoção de modelos mais transparentes para a avaliação por pares continua avançando na comunicação científica. Em artigo publicado pelo Open Research Europe, a plataforma destaca como o modelo de Open Peer Review fortalece a qualidade, a confiabilidade e a transparência das publicações científicas ao tornar públicos os pareceres, as identidades dos revisores, quando aplicável, e o histórico das revisões. O objetivo é transformar a revisão por pares em um processo mais aberto, colaborativo e passível de escrutínio pela comunidade científica.

    Nesse modelo, os manuscritos são publicados inicialmente e passam pela avaliação formal após a publicação. Os pareceres ficam disponíveis juntamente com o artigo, permitindo que leitores acompanhem a evolução do trabalho e compreendam como as contribuições dos revisores influenciaram a versão final da pesquisa. A proposta também desloca o foco da avaliação da "novidade" dos resultados para a qualidade metodológica e a validade científica do estudo.

    A discussão dialoga diretamente com um movimento mais amplo de transformação da comunicação científica. Recentemente, o Periódico Eletrônico noticiou o fórum promovido pela COAR sobre o modelo Publish–Review–Curate (PRC), que propõe separar as etapas de publicação, revisão por pares e curadoria dos resultados científicos. Nesse ecossistema, os trabalhos são disponibilizados inicialmente em repositórios abertos, enquanto diferentes organizações podem conduzir processos de avaliação e certificação de forma independente.

    Embora apresentem abordagens distintas, as duas iniciativas compartilham princípios fundamentais da Ciência Aberta. Tanto o Open Peer Review quanto o modelo Publish–Review–Curate defendem maior transparência, participação da comunidade acadêmica e redução da dependência do fluxo editorial tradicional, no qual a publicação e a avaliação estão fortemente vinculadas aos periódicos científicos.

    Na prática, o Open Research Europe demonstra que a revisão aberta já é uma realidade operacional em uma plataforma de publicação científica, enquanto o debate promovido pela COAR amplia essa visão ao propor uma reorganização estrutural de todo o ecossistema de comunicação científica. Em conjunto, essas iniciativas indicam uma tendência de evolução dos modelos de publicação, com processos mais distribuídos, transparentes e centrados na qualidade da pesquisa, em vez da exclusividade dos canais tradicionais de divulgação científica.


    Fonte: Open Research Europe
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  • Pesquisador denuncia suposta tentativa de suborno durante avaliação de artigo

    Um caso envolvendo uma suposta tentativa de suborno durante o processo de revisão por pares está sendo investigado pela editora Wiley. A denúncia foi feita pelo pesquisador independente Tushar Sen, de Nova Délhi, após receber e-mails de um indivíduo que alegava atuar como parecerista do periódico Security and Privacy. Nas mensagens, o autor era orientado a pagar por uma "revisão" do manuscrito, com a promessa de recomendação para aceitação. Dias depois, o mesmo remetente informou que havia recomendado a rejeição do artigo.

    Segundo a Wiley, a equipe de integridade em pesquisa abriu uma investigação e confirmou que o endereço de e-mail utilizado não corresponde ao de nenhum parecerista oficialmente convidado para avaliar o manuscrito. Ainda assim, a editora informou que recebeu cópias das mensagens apresentadas pelo pesquisador e que a confidencialidade do processo de revisão, bem como a proibição de qualquer contato direto entre revisores e autores ou solicitação de pagamento, são princípios fundamentais de sua política editorial.

    Como medida preventiva, a decisão editorial sobre o manuscrito foi reavaliada sem considerar o parecer associado ao caso investigado. Se a denúncia for confirmada, a editora poderá impedir futuras convocações do responsável para atuar como revisor. A investigação reforça os desafios enfrentados pelas editoras para proteger a confidencialidade e a integridade da revisão por pares, um processo fundamental para a avaliação de pesquisas científicas.


    Fonte: Retraction Watch
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  • Estudo aponta aumento de autocitações em grandes editoras de acesso aberto e reacende debate sobre métricas científicas

    Grandes editoras comerciais que adotam o modelo de acesso aberto financiado por taxas de processamento de artigos (APC) podem estar recorrendo de forma mais intensa às autocitações para preservar a reputação de seus periódicos durante períodos de crescimento acelerado. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado na revista Quantitative Science Studies, do MIT Press, que analisou o comportamento de citações de 8.360 periódicos pertencentes às 20 maiores editoras com fins lucrativos ao longo de 25 anos, entre 1997 e 2021.

    Os pesquisadores identificaram que periódicos classificados como Gold Open Access apresentam taxas significativamente mais elevadas de autocitação, especialmente para artigos publicados nos dois e cinco anos anteriores, exatamente as janelas temporais utilizadas no cálculo do Journal Impact Factor (JIF). Segundo os autores, esse comportamento foi particularmente evidente em periódicos de duas grandes editoras especializadas em acesso aberto, cujas taxas de autocitação cresceram à medida que seus periódicos expandiam rapidamente o número de artigos publicados.

    O trabalho parte da hipótese de que existe um equilíbrio entre seletividade editorial e reputação: publicar mais artigos aumenta a receita baseada em APCs, mas pode reduzir a qualidade média das publicações e comprometer o prestígio do periódico. Nesse contexto, o aumento das autocitações pode contribuir para manter indicadores bibliométricos elevados e compensar eventuais perdas de impacto decorrentes da expansão acelerada. O estudo ressalta, contudo, que os resultados não constituem prova de manipulação deliberada, mas evidenciam padrões estatísticos consistentes que merecem atenção da comunidade científica e das organizações responsáveis pela avaliação de periódicos.

    Entre as implicações apontadas pelos autores está a necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de monitoramento das métricas de impacto e ampliar o debate sobre modelos de avaliação científica que reduzam incentivos a práticas capazes de distorcer indicadores bibliométricos. A pesquisa também reforça a importância de analisar o desempenho dos periódicos para além do fator de impacto, considerando aspectos como qualidade da revisão por pares, transparência editorial e integridade da comunicação científica.

    Confira o artigo completo aqui: Modelos de negócios de publicações acadêmicas: autocitações e a relação entre seletividade e reputação


    Fonte: QSS via MIT Press Direct
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  • Mais artigos, menos revisores: o desafio que ameaça a sustentabilidade editorial

    O crescimento contínuo da produção científica tem ampliado a pressão sobre todo o sistema de publicação acadêmica. Em artigo publicado no The Scholarly Kitchen, Haseeb Irfanullah argumenta que a combinação entre o aumento das submissões e a escassez de revisores e editores disponíveis tem transformado o processo editorial em um ambiente cada vez mais desafiador.

    Segundo o autor, enquanto pesquisadores são incentivados a publicar cada vez mais, o número de especialistas dispostos a realizar revisões por pares não cresce na mesma proporção. Como consequência, editores enfrentam dificuldades para encontrar revisores qualificados, os prazos de avaliação se tornam mais longos e a sobrecarga de trabalho aumenta para todos os envolvidos.

    Esse cenário afeta diretamente a experiência de autores, revisores e equipes editoriais. Autores convivem com a ansiedade pela decisão editorial e com sucessivas rodadas de revisão. Revisores precisam conciliar avaliações voluntárias com suas atividades de pesquisa, ensino e gestão. Já os editores acumulam a responsabilidade de manter a qualidade da revisão por pares enquanto administram atrasos, recusas de convites e expectativas dos autores.

    O artigo defende que esses desafios não devem ser vistos apenas como questões operacionais. A sobrecarga do sistema também produz impactos humanos, influenciando a motivação, a colaboração e a qualidade das interações entre os participantes da comunicação científica. Para o autor, reconhecer essa realidade é um passo importante para desenvolver práticas editoriais mais sustentáveis, com processos transparentes, expectativas realistas e maior valorização do trabalho de revisão por pares.


    Fonte: The Scholarly Kitchen
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  • Estudo revela paradoxo da IA na ciência: mais produtividade, menos diversidade

    A inteligência artificial tem transformado a produção científica ao aumentar a produtividade e a visibilidade dos pesquisadores, mas seus efeitos sobre o avanço do conhecimento coletivo despertam preocupações. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo publicado na revista Nature e analisado pela Revista Pesquisa FAPESP.

    A pesquisa examinou 41,3 milhões de artigos científicos publicados entre 1980 e 2025 em áreas como biologia, medicina, química, física, geologia e ciência dos materiais. Os resultados mostram que pesquisadores que utilizam ferramentas de IA publicam, em média, três vezes mais artigos e recebem quase cinco vezes mais citações do que aqueles que não recorrem à tecnologia. Além disso, tendem a assumir posições de liderança mais cedo em suas carreiras.

    Apesar desses benefícios individuais, o estudo identificou um efeito colateral importante: a diversidade temática da produção científica diminuiu cerca de 5%, enquanto o engajamento entre diferentes grupos de pesquisa caiu 22%. Segundo os autores, a IA favorece pesquisas em áreas com grande volume de dados disponíveis, incentivando cientistas a concentrar esforços em temas já consolidados, em vez de explorar questões novas ou menos estruturadas.

    Outro ponto levantado é o impacto na formação de jovens pesquisadores. Equipes que utilizam IA costumam contar com menos cientistas em início de carreira, o que levanta dúvidas sobre como futuras gerações desenvolverão habilidades fundamentais, como análise crítica, revisão de literatura e elaboração de hipóteses.

    Especialistas ouvidos pela reportagem defendem que a inteligência artificial deve ser utilizada como ferramenta de apoio, e não como substituta da curiosidade científica. Para eles, cabe às instituições de pesquisa e às agências de fomento criar mecanismos que valorizem a originalidade e incentivem investigações capazes de ampliar as fronteiras do conhecimento, evitando que a busca por produtividade reduza a diversidade e a inovação na ciência.


    Fonte: Revista Pesquisa FAPESP
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  • Miguilim orienta editores sobre atualização de informações de revistas científicas

    Após o lançamento de novas funcionalidades do Diadorim para ampliar a transparência das políticas editoriais das revistas científicas brasileiras, o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) volta a destacar outra iniciativa estratégica para a comunicação científica nacional. Desta vez, o foco está no Diretório das Revistas Científicas Eletrônicas Brasileiras (Miguilim), que orienta editores a manterem atualizados os registros de seus periódicos para melhorar a qualidade dos metadados, ampliar a visibilidade das publicações e fortalecer a infraestrutura nacional de informação científica.

    O Miguilim reúne informações sobre revistas científicas eletrônicas brasileiras e seus portais, disponibilizando dados como políticas editoriais, indexações, instituição editora, classificação Qualis Periódicos e outros metadados relevantes para pesquisadores e instituições. Atualmente, cerca de 30% dos registros estão atualizados, e a equipe técnica atua para ampliar esse percentual em colaboração com os editores.

    Segundo Fhillipe Campos, bibliotecário da equipe do Miguilim, informações relacionadas à política editorial dependem exclusivamente das equipes responsáveis pelas revistas, tornando sua participação indispensável para manter o diretório atualizado.

    O processo de atualização varia conforme a situação de cada registro. Editores com permissão podem alterar os dados diretamente no sistema, enquanto responsáveis por revistas ainda sem vínculo de edição devem solicitar acesso por meio da própria plataforma. Todas as alterações passam por verificação da equipe técnica, que assegura a consistência e a qualidade das informações. A iniciativa fortalece a interoperabilidade, a transparência e a visibilidade da produção científica brasileira, em consonância com os princípios da Ciência Aberta.


    Fonte: Ibict
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  • Conferências falsas expõem vulnerabilidades no ecossistema da publicação científica

    A proliferação de conferências acadêmicas falsas tem se tornado uma preocupação crescente na comunidade científica chinesa. Criminosos estão criando eventos inexistentes, prometendo publicação de artigos em bases reconhecidas e certificação de participação para atrair pesquisadores pressionados por exigências de produtividade acadêmica. Em muitos casos, após o pagamento das taxas de inscrição e submissão, os autores descobrem que a conferência nunca ocorreu e que os trabalhos foram publicados em periódicos sem reconhecimento ou sequer indexados nas bases prometidas.

    O problema foi destacado pelo South China Morning Post, que relata casos de pesquisadores prejudicados por esse tipo de fraude. Uma docente da cidade de Wuhan afirmou ter pago cerca de 4.600 yuans para participar de um evento que prometia indexação na base Compendex, da Elsevier. Meses depois, descobriu que a conferência era totalmente fictícia, incluindo sua comissão organizadora, e que seu artigo havia sido publicado em um periódico sem relevância acadêmica.

    Especialistas alertam que o crescimento desse mercado paralelo é impulsionado pela forte pressão para publicação e progressão na carreira, tornando pesquisadores menos experientes especialmente vulneráveis. O caso reforça a importância de verificar cuidadosamente a legitimidade de conferências, organizadores e bases de indexação antes de submeter trabalhos ou efetuar pagamentos, além de incentivar instituições a promoverem maior conscientização sobre esse tipo de golpe.


    Fonte: South China Morning Post
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  • Além do Fator de Impacto: o que as mudanças no JCR 2025 revelam

    O Journal Citation Reports (JCR) 2025 trouxe mudanças que, embora sutis, indicam uma evolução na forma como a qualidade dos periódicos científicos vem sendo avaliada. Em análise publicada por Richard Jonathan Gray, as novidades demonstram um movimento gradual de valorização da integridade científica e da transparência editorial, indicando que a avaliação da qualidade das revistas tende a ir além dos tradicionais indicadores bibliométricos.

    O autor observa que o Fator de Impacto continua sendo uma das métricas mais influentes da comunicação científica, amplamente utilizado por pesquisadores, instituições e agências de fomento. No entanto, as alterações introduzidas na edição de 2025 do JCR sugerem um esforço para contextualizar melhor esse indicador e destacar aspectos relacionados à confiabilidade das publicações. A iniciativa acompanha um cenário em que temas como manipulação de citações, fábricas de artigos, retratações e boas práticas editoriais passaram a ocupar posição central nas discussões sobre avaliação da produção científica.

    Outro ponto destacado é que essas mudanças não alteram, por si só, a forma como os periódicos são classificados, mas enviam um sinal claro à comunidade acadêmica. A tendência é que métricas quantitativas sejam interpretadas em conjunto com informações que permitam avaliar a qualidade dos processos editoriais e o compromisso das revistas com a integridade da pesquisa. Esse movimento está alinhado às iniciativas internacionais que buscam tornar a comunicação científica mais transparente, responsável e confiável.

    Para editores de periódicos científicos, as mudanças representam um incentivo para fortalecer políticas editoriais, aperfeiçoar os processos de revisão por pares e adotar práticas que aumentem a credibilidade das publicações. Já para pesquisadores, o JCR 2025 reforça a importância de analisar os indicadores de impacto de forma crítica, considerando também o contexto editorial e os mecanismos adotados pelas revistas para garantir a qualidade e a confiabilidade dos artigos publicados. Ainda que discretas, as alterações apontam para uma transformação gradual na forma como a excelência científica poderá ser reconhecida nos próximos anos.


    Fonte: R. Jonathan Gray via substack
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